5# GERAL 21.5.14

     5#1 POLCIA  ESTE  O PAS DA COPA
     5#2 ESPECIAL  A MARRA DO MELHOR DO MUNDO
     5#3 GENTE
     5#4 JUSTIA  PAI FOI O MENTOR DO CRIME
     5#5 ARTE  HOMEM DE AO
     5#6 RODRIGO CONSTANTINO  ESTRANHAS PRIORIDADES

5#1 POLCIA  ESTE  O PAS DA COPA
Imagens de traficantes cariocas comemorando um gol com uma saraivada de tiros de fuzil rodam o mundo na semana em que manifestaes anti-Mundial no Brasil terminam em saques e depredaes 
LESLIE LEITO 

     No pas que daqui a vinte dias vai sediar a Copa do Mundo, um time de futebol amador foi notcia em todo o planeta. O Vila Aliana Clube  criado e financiado pelo traficante Rafael Alves, o Peixe, chefe da favela de mesmo nome, na Zona Oeste do Rio de Janeiro  foi a estrela do filme que se transformou em mais uma pea de (pssima) propaganda do Brasil no exterior. 
     Reproduzido at pela Al Jazira, ele comea quando o Vila Aliana faz um gol de pnalti. Imediatamente, jogadores vestidos com o uniforme completo da seleo sacam fuzis e pistolas e passam a disparar para o alto. A saraivada interminvel de balas seria suficiente para aterrorizar at moradores de Cabul, a capital h trinta anos conflagrada do Afeganisto. Mas na Vila Aliana ningum se mexe. Homens de braos cruzados assistem impassveis  cena. Um adolescente tapa os ouvidos, mas no por medo  est visivelmente incomodado com o barulho. Ningum corre, grita nem se assusta. Afinal, assim so as tardes de domingo no Brasil, deve imaginar o mundo. 
     O vdeo dos traficantes foi a primeira martelada da semana na caixa de ressonncia em que o Brasil se transformou no exterior com a proximidade da Copa. Outras vieram na quinta-feira, data combinada para os protestos contra a Copa do Mundo. As manifestaes foram organizadas por sem-teto, estudantes e black blocs, sem a presena visvel de partidos polticos. Se o nmero de participantes ficou abaixo do esperado, os episdios de violncia no decepcionaram os mais pessimistas. Em So Paulo, um grupo de black blocs depredou uma concessionria e entrou em choque com policiais, o que antecipou o fim de uma passeata planejada para sair da Avenida Paulista, passar pelo prdio onde mora o ex-jogador Ronaldo e terminar no Pacaembu. Outro grupo tentou invadir o Itaquero, sede da abertura da Copa do Mundo, mas foi contido por torcedores organizados do Corinthians, o dono da arena. 
     Fortaleza, Salvador e Vitria tambm registraram manifestaes. No Recife, a regio metropolitana pegou fogo nas mos de vndalos que se aproveitaram de uma greve da polcia (j encerrada) para impor o terror. Lojas foram assaltadas e destrudas, arrastes tomaram conta das ruas, aulas foram suspensas e comerciantes aterrorizados foram obrigados a cerrar as portas. No Rio de Janeiro, a adeso foi pequena. A maior no chegou a reunir mais do que 1500 pessoas. Tambm a favela da Vila Aliana ficou em paz nesse dia. Peixe, o senhor do lugar e do time de futebol (para o alto escalo do crime carioca, bancar equipes em seus redutos tambm  uma forma de alardear poder  eles so os donos da bola, os cartolas da favela), detestou a sbita notoriedade produzida pelo vdeo do jogo. O episdio o alou ao rol dos bandidos mais procurados do Rio. Por causa disso, o traficante ordenou o recolhimento dos fuzis e proibiu os moradores de usar celular na rua, para evitar novos flagrantes. Todo mundo obedeceu. 
     Na noite de sexta-feira, So Paulo ainda registrou rescaldos das manifestaes de quinta. Um grupo ateou fogo em dezenas de carros em um estacionamento prximo ao Aeroporto de Guarulhos, o mais movimentado do Brasil, porta de entrada de grande parte dos turistas que viro para a Copa do Mundo. O grupo arremessou rojes contra policiais e um bairro vizinho ao terminal foi cercado por carros da polcia, para evitar que os manifestantes tentassem chegar ao aeroporto. 
     O Brasil e os riscos que rondam a Copa j eram notcia no mundo desde o incio da semana, quando a revista alem Der Spiegel publicou reportagem sobre o assunto. Na capa, ela estampou a bola Brazuca como se fosse um meteoro pegando fogo, prestes a cair sobre o Rio de Janeiro. Dizia a reportagem de dez pginas: "Justamente no pas do futebol, a Copa do Mundo pode ser um fiasco: protestos, greves e tiroteios em vez de festa". Desmentir esse prognstico ser o desafio do Brasil. 


5#2 ESPECIAL  A MARRA DO MELHOR DO MUNDO
Cristiano Ronaldo pode no levar a Copa, mas chega ao Brasil como o mais temido, mais triunfante e mais convencido dos craques das grandes selees.
JULIANA LINHARES

     Diante de um monstro, ora sagrado, ora profano, como Cristiano Ronaldo s existem duas reaes possveis. Admir-lo desbragadamente, como fazem tantos amantes do futebol, admiradoras femininas e fs infantis. Ou assinar a rendio: mesmo rejeitando-o pelo estilo, arrogncia e exibicionismo, admitir que  hoje o melhor jogador do mundo, uma combinao nica de habilidade, fora e avassaladora vontade de vencer. V-lo jogar em um estdio espanhol  um espetculo que possivelmente nem na Copa do Mundo, quando defender o time portugus que levou heroicamente  classificao, poder ser repetido. Diante de um pblico ainda culturalmente imerso na tradio das touradas, Ronaldo leva suas qualidades ao extremo. Parece, simultaneamente, ter a graa e os movimentos finos do toureiro e a potncia bruta, mas cheia de inteligncia corporal, dos touros. Ser tambm o jogador mais bonito, o mais bem pago e o detentor dos maiores contratos publicitrios do mundo no atrapalha em nada a exaltada imagem do craque. 
     "Messi  um gnio. Cris  uma mquina", compara o jogador Kak, que  atuou com ele no Real Madrid at 2013. "Ele faz mais de 3000 abdominais por dia", informa seu primo Nuno Viveiros. " um dos maiores cones de moda e copiado por homens, mulheres, crianas, gays, alm de vender seus produtos para todos eles", enumera Miguel Siero, o cabeleireiro que faz os cortes resistentes aos gols de cabea e as sobrancelhas eternamente arqueadas. Para chegar e permanecer nesse topo, Cristiano Ronaldo trabalha h dezoito anos de maneira dura, metdica e visceral. Filho caula de uma famlia pobre de quatro irmos, Ronaldo, cujo nome foi inspirado no presidente americano Ronald Reagan, comeou a carreira precoce aos 9 anos, no clube Andorinha, na Ilha da Madeira, encantador enclave atlntico de Portugal. Seu pai era roupeiro do modesto time, logo trocado por um clube maior da ilha, o Nacional. Apelidado de Abelhinha por causa da velocidade em campo, o menino levantou voos muito mais altos. 
     Relembra Aurlio Pereira, o ento olheiro do clube Sporting, de Lisboa, que primeiro viu o Abelhinha: "Ns havamos ouvido falar de um mido madeirense que era um espetculo, mas no podamos contrat-lo porque s admitamos rapazes com ao menos 15 anos. De algum modo, topamos que Cristiano viesse fazer um teste. Quando aquele menino, de 11 anos, comeou a jogar, a cara dos outros moleques fazia crer que tinha cado um ovni no meio do campo. Ele tinha manha, chutava com as duas pernas e era rpido". Foi contratado no dia seguinte, com uma recomendao proftica: "Um talento fora de srie.  de destacar a sua capacidade de drible em movimento ou parado". 
     Foi nesse tempo que o pai de Cristiano, Jos Aveiro, comeou a apresentar os primeiros sinais mais severos de alcoolismo. Convocado para a ltima etapa das guerras coloniais de Portugal, havia cado na bebida ao voltar de Angola para a Madeira. Chegava a bater na mulher, Dolores, que viria a ser a me-ncora, figura provedora e incentivadora to presente na vida de jogadores de sucesso. Com o filho j rico e famoso, Aveiro recusou qualquer tipo de ajuda. Morreu de problemas hepticos em 2005. Quem deu a notcia da morte a Cristiano, horas antes de uma partida contra a Rssia, foi Luiz Felipe Scolari, no terceiro de seus seis anos como tcnico da seleo portuguesa. Hugo, o irmo mais velho de Ronaldo, ia pelo mesmo caminho sem volta do pai, mas aceitou as ofertas de tratamento do jogador. Ele passou por duas internaes. Hoje, dirige o Museu CR7, inaugurado em dezembro, em Funchal, onde cuida com esmero da imponente esttua de cera do irmo famoso. 
     A vaidade de Ronaldo foi to precoce quanto o talento. "Ele ia jogar com os cabelinhos alisados com sabo e com as botinas engraxadinhas", recorda seu padrinho, Ferno Sousa. O esprito competitivo tambm. "Muitas madrugadas, encontramos o Cristiano treinando sozinho, na sala de ginstica. Ele queria ser forte e tinha de ganhar tudo. No pingue-pongue, no basquete, no hquei. Se no ganhava, chorava, brigava", conta o ex-olheiro Aurlio Pereira. 
     A transferncia de Cristiano Ronaldo do Sporting para o Manchester United foi a segunda grande virada de sua vida. Com o time ingls, plantou as bases de sua extravagante figura e do estilo de jogo. "Ele resolve 70% dos jogos. Faz gols inesquecveis. No ar, em cobrana de falta e de pnalti", analisa o jornalista esportivo ingls Rob Hughes, colunista do New York Times. "O que pega nele  essa atitude 'olhem para mim'. Isso repele tantas pessoas quanto as que ele atrai. Lembra um pouco o Michael Jackson." Sobre essa marra, Cristiano j deu declaraes fulminantes como um gol de calcanhar: "Sou vaiado porque sou bonito, rico e timo jogador.  inveja". Ou: "O seu amor me faz forte. O seu dio me faz imparvel". Deve ser mesmo. CR7, como  chamado na Europa, por causa do nmero de sua camisa, ganha 21 milhes de euros, por ano, de salrio  o maior da histria. O argentino Lionel Messi ganha 16. Fora isso, fatura 33 milhes de euros, por ano, em contratos publicitrios e bnus. Em Portugal,  um fenmeno quase incompreensvel. "Ele  o homem que os portugueses raramente conseguem ser: timo profissional e dono do prprio nariz. Contrasta com o trao comum de submisso deste pas", fulmina o historiador Joo Sedas, da Universidade Nova de Lisboa. 
     Rosto e corpo so tratados por Cristiano Ronaldo como patrimnio e obras de arte. A acne  combatida com cidos e disfarada com protetor solar com base tonalizante. Os dentes refulgem com clareamento quase sobrenatural. Seus pelos so arrancados com cera. No corpo de 1,85 metro e 84 quilos, h contornos de msculos s encontrados em fisiculturistas. "No se vem jogadores com braos to definidos como os dele.  preciso muita vaidade para alcanar uma separao muscular to ntida", analisa Brulio Frana, presidente da Confederao Brasileira de Fisiculturismo. " comum estarmos em sua casa, fazendo um churrasco  beira da piscina, e ele, no meio de ns, ficar na bicicleta ergomtrica", conta o primo Nuno Viveiros. "Ele  o primeiro a chegar ao treino e segue para a academia, trinta, 45 minutos antes de todo mundo. Passa o dia treinando e, quando a maioria dos jogadores vai para casa, segue para a banheira de gelo. Como investe no corpo, sabe que a recuperao dos msculos  essencial para a manuteno da fora", diz Kak. Pensando nisso, Ronaldo comprou no ano passado para sua manso em Madri uma cmara de crioterapia que custou 35.000 euros. Trs vezes por semana, passa alguns minutos na cmara submetendo-se a temperaturas de at 120 graus negativos. "A crioterapia regenera os msculos, diminui as inflamaes e at atenua a acne", diz Aurora Heredia, dona da clnica de beleza em Pozuelo de Alarcn, bairro chique de Madri, onde Cristiano comprou o aparelho. 
     O ideal de perfeio olmpica foi completado h quatro anos, quando o jogador comeou a namorar a modelo russa Irina Shayk, adorada pelos autores de campanhas publicitrias de lingerie e vista com restries pela famlia Aveiro. "Ela no  mulher para ele. Ns somos carinhosos. Ela  daquela raa fria. No quer sair de Nova York, onde mora, e se mudar para Madri. Quando o Cristiano estava machucado, pergunte se ela foi cuidar dele. No foi", diz uma pessoa desse crculo. O namoro com a russa comeou poucos meses depois que o jogador assumiu a paternidade de Cristiano Ronaldo Jnior, o Cristianinho, e informar que 1) no revelaria o nome da me do menino e 2) tinha conseguido a guarda integral dele. Um parente do jogador disse a VEJA que Cristianinho  fruto de um caso rpido com uma mexicana baseada nos Estados Unidos e que ela ganhou uma fortuna para abrir mo, na Justia americana, da guarda do filho. "A nossa me  quem cuida dele", diz a simptica Elma Aveiro, irm mais velha do jogador, que tem uma loja, evidentemente chamada CR7, na Ilha da Madeira. Vende roupas, acessrios e teros com fotos de Ronaldo. Outra irm, a cantora Ktia (que no incio da carreira assinava Ronalda), acaba de ser eliminada do reality show Supervivientes, na Espanha. No houve dia em que algum dos participantes no tenha dito que ela estava l s por causa do parentesco. 
     Recuperando-se de uma leso na perna esquerda, vital para a final da Liga dos Campees, no prximo dia 24, Cristiano Ronaldo abandonou temporariamente as baladas madrilenas (a boate Cabana jamais esquecer suas incurses na sala vip) e pouco tem sido visto fora de sua casa no condomnio La Finca, onde mora com Cristianinho, um motorista/segurana e duas empregadas. A me mora bem perto, em um condomnio a cinco minutos de carro. A casa do jogador, avaliada em 7 milhes de euros, tem sala de cinema, duas piscinas e cinco sutes. Os brinquedinhos na garagem so uma Ferrari, um Lamborghini, um Porsche, uma Maserati e um Bentley. H quem diga que so mais de dez no total, "Ele gostaria de ter moto, mas o contrato com o Real no permite", diz o primo. Cristiano ainda tem casas de luxo em Gers, em Portugal, em Manchester, na Inglaterra, e em Funchal. "Trabalho muito com os produtos para casa da Herms. Tambm uso poltronas grandes, tapetes de l com seda e mantas de mohair, uma seda finssima feita de pelo de cabras angors, alm de velas e candeeiros de Murano", descreve Paula Brito, decoradora das casas de Cristiano Ronaldo. 
     O comportamento mais recludo de Cristiano Ronaldo emergiu no episdio em que a gacha Andressa Urach diz ter passado uma noite com ele em 2013. ''Ele  o melhor, sexualmente falando. E, na Copa, vou tentar entrevist-lo. Sou uma profissional", explicita Andressa, que faz parte da equipe de um programa de televiso. Cristiano Ronaldo conhece bem esse tipo de mundo. Sua primeira namorada, em 2006, foi a apresentadora de televiso Merche Romero, que tem um programa de TV em Portugal. "Namorar com ele exige muita abnegao. Eu ficava tomando um vinho ou vendo TV e ele, brincando com uma bola o tempo todo", machuca Merche. 
     A seleo de Portugal no figura entre os times mais cotados para ganhar a Copa, mas no existe jogador que no trema um pouquinho diante da possibilidade de enfrentar o melhor do mundo no auge da forma e da fama, e ainda alimentado a bacalhau  brs, seu prato predileto, que ser preparado pelo chef Hlio Loureiro. J a famlia dele treme mesmo  com o Brasil. Mas no o time. "No vamos para a Copa porque temos medo da violncia. Fui uma vez a Fortaleza e fiquei horrorizada", resume a irm Elma, que  devota de Iemanj e de Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem leva pendurada no pescoo. "Amigas brasileiras que me deram." Quem a deusa pag e a manifestao nacional da santssima me de Jesus protegero? 

A EVOLUO DA MQUINA DE FAZER GOLS
Em doze anos de carreira, Cristiano Ronaldo acumula recordes impressionantes:  o jogador que fez mais gols em uma nica edio da Liga dos Campees da Europa (dezesseis) e o nico da histria a marcar mais de cinquenta gols por quatro temporadas seguidas no futebol espanhol.

O CRIADOR DA CRIATURA
O cabeleireiro espanhol Miguel Siera reinventa constantemente os cortes de cabelo de Cristiano Ronaldo, clonados globalmente. E tambm retoca as notrias sobrancelhas.

O senhor sabe que ficaria rico no Brasil, onde meninos e no to meninos copiam as costeletinhas do craque? 
No  s no Brasil. Ele  um dos cones de moda mais imitados do mundo. O futebol no  feito apenas de gols;  um esporte que marca tendncias, porque os meninos imitam seus dolos. 

 ele quem prope os cortes? 
Tambm. O mais importante  que sempre fao cortes que possam ser usados de trs formas. E, claro, que fiquem perfeitos fora e dentro do campo tambm. 

Qual foi o penteado mais famoso que criou para ele? 
Foram umas costeletas acompanhadas de um V desenhado no cabelo, acima das orelhas. Fiz para um confronto entre Real Madrid e Barcelona e me inspirei em uns guerreiros virtuais da internet. Para eles, esse smbolo traz tranquilidade durante o combate. Cristiano fez dois gols e o impacto miditico foi incrvel. 

Seu salo vira uma loucura quando ele chega? 
Atendo Cristiano na casa dele. A cada dez dias fazemos retoques, planejamos novos volumes e explicitamos o contorno dos desenhos. Estamos juntos h cinco anos. 

O estilo influencia o sucesso do jogador? 
No diria que existe uma relao absoluta, mas  certo que, quando ele gosta do que v no espelho, acredita mais em suas chances  em campo e na rea publicitria. O cabelo  um veculo de seduo e de comunicao, e Cristiano tem em sua imagem tudo o que h de mais recente na moda. 

E o senhor tambm  o culpado pelas sobrancelhas dele. 
Mas  claro. As sobrancelhas so as autnticas marcas do rosto dele. Um bom desenho, como o que ele tem, pode dar um ar de juventude, um olhar mais penetrante.

BONS SEPARADOS, INVENCVEIS JUNTOS
Casais famosos em que cada um dos elementos j tinha carreira e fortuna antes da unio tornam-se maiores ainda do que a soma das duas partes. A imagem de unidade familiar bem-sucedida produz marcas poderosas e valorizadas.

GISELE BNDCHEN E TOM BRADY
Fortuna estimada do casal: 860 milhes de reais
Porcentagem de cada um: ela tem 74% e ele, 26%
Pontos para ela: Tom Brady era mais conhecido e ainda  muito mais querido que a modelo gacha nos Estados Unidos. Os dois filhos do casal suavizam a imagem trincada que Gisele teve no comeo da relao, quando uma namorada dele estava grvida
Pontos para ele: atleta de um esporte agressivo, o futebol americano, ele se refinou no modo de vestir, e os hbitos naturalistas da mulher geram reaes positivas. E quem no quer ser o marido de Gisele?

KIM KARDASHIAN E KANYE WEST
Fortuna estimada do casal: 309 milhes de reais
Porcentagem de cada um: ela tem 28,5% e ele, 71,5%
Pontos para ela: era conhecida por fazer um reality show que mostra sua vida ftil, pelo bumbum gigantesco, por um certo vdeo porn e pelo mau gosto exagerado. Com Kanye, est operando um fenomenal reposicionamento no mercado
Pontos para ele: aparece muito mais agora. Ao reorientar as roupas e o modo de Kim de se apresentar, tambm se tornou o mais famoso e rico Pigmalio da histria.

ANGELINA JOLIE E BRAD PITT
Fortuna estimada do casal: 852 milhes de reais
Porcentagem de cada um: ela tem 38% e ele, 62%
Pontos para ela: tinha imagem de devoradora de homens, tatuada e drogada. Com Pitt, teve seis filhos, virou porta-voz de boas causas e anulou o roubo de marido (subtrado de Jennifer Aniston) com uma certa aura de santidade
Pontos para ele: tambm reconstruiu a imagem, com ajuda de especialistas poderosos, e entrou no ramo da filantropia engajada dos famosos

DINHEIRO NA CUECA
O valor de um jogador, hoje,  medido por trs vetores, segundo um dos maiores especialistas em marketing esportivo do Brasil, Amir Somoggi. "Ser um estupendo jogador responde a 50% do valor. Arrastar multides, ser dolo e ditar padres estticos, a outros 20%. Ter uma boa imagem, o que significa no se meter em confuses, por exemplo, dita os 30% restantes", diz Somoggi. Os que preenchem todos os vetores so os que tm os melhores salrios, nos maiores clubes, e contratos publicitrios milionrios. Alm disso, ganham para exibir alegremente corpinhos e corpes.

Cristiano Ronaldo
Salrio, bnus e publicidade 161 milhes de reais anuais
Toyota - Entre 9 e 15 milhes de reais anuais, desde 2012
Nike - 18 milhes de reais anuais, de 2014 a 2019
Unilever - Cerca de 20 milhes de reais anuais, desde 2009
Banco Esprito Santo  Cerca de 15 mihes de reais anuais
Outros contratos - Samsung, Emirates Airlines, JBS, Tag Heuer, Herbalife, KFC, Konami, Bimbo, Coca-Cola, Castrol, Motorola

David Beckham
Publicidade, j como aposentado 81 milhes de reais anuais
Sainsbury's  18,5 milhes de reais anuais, desde 2011
Adidas - Contrato vitalcio, de 357 milhes de reais
Sky  75 milhes de reais de 2013 a 2018
Outros contratos - H&M, Jaguar, Belstaff, Diageo, Breitling

Neymar
Salrio, bnus e publicidade 45 milhes de reais anuais
Ambev -  8 milhes de reais de 2011 a 2016
Nike - 50 mines de reais, de 2011 a 2022 
Claro  10 milhes de reais de 2011 a 2016
Outros contratos - Lupo, Mentos, Panasonic, Baterias Heliar, L'Oral, Tenys P Baruel, Volkswagen, Santander e Castrol
     
COM REPORTAGEM DE ALEXANDRE SALVADOR, MARILIA LEONI, TASA SZABATURA E THAS BOTELHO


5#3 GENTE
JULIANA TAVARES. Vom Marlia Leoni, Tasa Szabatura e Thas Botelho

A DEUSA ISIS E O TOURO MEXICANO
Findo o tempo em que ficou reclusa, por causa de um grave acidente de carro e tambm do fogaru envolvendo o ator  ento casado  Cau Reymond, ISIS VALVERDE volta  cena de corpo inteiro. Nesta semana, j livre do colar cervical, comea a gravar as cenas da prxima novela das 6, Boogie Oogie, em que ser a protagonista. A atriz est to recuperada que foi vista em companhia do mexicano URIEL DEL TORO pulando o muro  literalmente, visto que ambos so livres  de um prdio na Barra da Tijuca. Ele j fez novelas e grandes campanhas publicitrias, mas  na msica que alcana planos superiores. Baterista de uma banda de rock psicodlico, diz no fazer shows, mas "rituais" onde so distribudos brownies alucinantes, de to bons,  plateia. Tudo a ver com a Aiuruoca natal de Isis.

O BRILHO DA OUTRA KATE
Quanto custa um prncipe? Caro, mas compensa. Membros da famlia real inglesa "vendem" sua presena em festas para grandes causas beneficentes. O superempresrio de moda americano Ralph Lauren, nascido na famlia Lifshitz, no Bronx, doou o equivalente a 4,5 milhes de reais em prol de um hospital de cncer do qual o prncipe WILLIAM  patrono e ganhou um jantar cheio de famosos no Palcio de Windsor. S faltou a mulher de William, Kate, ausncia parcialmente compensada por beldades como a atriz EMMA WATSON e a modelo KATE MOSS. "Que pena" suspirou a modelo languidamente, com um vestido de fenda at bem no alto da coxa, quando William alegou que a xar tinha ficado cuidando do filho. E quanto custa a pulseira com uma esmeralda de 35 quilates usada pela outra Kate? A pea, comprada em So Paulo na joalheria de Ara Vartanian, saiu pela ninharia de 500.000 reais. 

UMA SEMANA DE FRIA
O maior empresrio do mundo pop, dois bilionrios da Austrlia e o ator Alec Baldwin envolveram-se em altercaes que, no fossem to violentas, seriam engraadas. Tudo bem, podem rir um pouquinho. Motivos das brigas: dinheiro, mulher e fama, claro.

Quem: o ator ALEC BALDWIN, conhecido como encrenqueiro serial, e duas policiais
Onde: na Quinta Avenida, em Nova York
Como: Baldwin estava de bicicleta, na contramo, e foi parado 
Por qu: por estar sem documento e ter desacatado as policiais, foi levado a uma delegacia e multado

Quem: a cantora SOLANGE KNOWLES e o cunhado JAY Z
Onde: dentro de um elevador
Como: ela bateu, chutou e deu bolsada. Foi contida por um segurana. A irm, BEYONC, nem se mexeu para proteger o marido
Por qu: empresrio das irms, ele teria desistido da carreira da cunhada. Tambm parece que ela exagerou na bebida, entre outras substncias. A famlia anunciou um tratado de paz

Quem: os empresrios australianos JAMES PACKER, namorado da modelo MIRANDA KERR, e o amigo dele, DAVID GYNGELL, ambos bilionrios
Onde: na frente da casa de Packer, em Sydney
Como: Gyngell atacou o amigo e os dois saram no brao
Por qu: Gyngell diz que ele est tratando de forma execrvel a ex-mulher e os trs filho

REBOLADO PADRO FIFA
Os preparativos da cantora CLAUDIA LEITTE para a festa de abertura da Copa esto muito  frente de todo o resto, mas ela no quer entregar o jogo. Como ser sua roupa? "S vou saber na ltima hora", despista. E o show que far ao lado dos americanos Jennifer Lopez e Pitbull e do Olodum? "Estamos nos falando por e-mail. Ainda no sei as datas, mas vamos fazer dois ensaios no Itaquero." Claro que da parte dela ser um showzo. Claudia assinou h pouco nos Estados Unidos um contrato com a mesma gravadora de Rihanna e Shakira. A empresa pertence a Jay Z, o de blazer branco l de cima, que andou levando uns sopapos da cunhada. Alguma ideia de quem vencer o campeonato de rebolado no palco da Copa? "Jennifer tem um gingado de brasileira", desconversa. 


5#4 JUSTIA  PAI FOI O MENTOR DO CRIME
Delegada e promotora culpam o pai de Bernardo pela morte do menino, mas exibem provas pouco consistentes.

     Caso encerrado. Ao menos  o que pensam os responsveis pela investigao da morte do menino Bernardo Boldrini, de 11 anos. Na semana passada, policiais e representantes do Ministrio Pblico do Rio Grande do Sul anunciaram as concluses a que chegaram depois de um ms de investigao do crime. Para eles, o pai de Bernardo, o mdico-cirurgio Leandro Boldrini, e a madrasta do menino, Graciele Ugulini, com a ajuda da assistente social Edelvnia Wirganovicz, se uniram para matar a criana com o objetivo de livrar-se de um incmodo, segundo a polcia, ou tomar posse da herana que cabia a Bernardo pela morte de sua me, de acordo com a interpretao do Ministrio Pblico. Apesar de divergirem quanto  motivao do assassinato, a delegada Caroline Machado e a promotora Dinamrcia de Oliveira concordaram em um ponto:  Leandro Boldrini, afirmaram, foi quem tramou o assassinato do filho. 
     "Ele  o mentor ideolgico", disse a promotora. Apesar da convico dos investigadores, as provas apresentadas at agora contra o cirurgio parecem frgeis. So, basicamente, gravaes de telefonemas trocados entre parentes e uma receita mdica assinada por Boldrini. A polcia gravou ligaes feitas pela famlia Boldrini depois da priso de Leandro e Graciele na tentativa de buscar informaes que ajudassem a esclarecer o crime. Mas os dilogos mostrados  imprensa na semana passada como prova da culpa do mdico contm menos revelaes incriminatrias do que ilaes. Num deles, por exemplo, o padrasto de Graciele diz ter "certeza" da participao do mdico na morte do filho. Mas no explica o motivo da sua convico nem revela fatos que a corroborem. O segundo episdio  que, de acordo com os investigadores, evidencia a culpa de Boldrini  a receita assinada por ele autorizando a "paciente" Edelvnia a comprar midazolam  o mesmo medicamento usado por Graciele para sedar Bernardo no dia de sua morte. O teste que pode assegurar que foi o prprio Boldrini quem escreveu e assinou o documento, porm, ainda no foi concludo. 
     Se as provas apresentadas at agora no parecem suficientes para incriminar o mdico, tampouco os fatos depem a favor de sua inocncia. O desprezo que ele demonstrava pelo filho era evidente  e ficou claro tambm depois do desaparecimento da criana. Ao comentar o sumio com amigos e parentes, Boldrini s se referia a Bernardo como "o garoto", nunca como "o meu filho". Ele, a mulher e Edelvnia foram denunciados  Justia por homicdio qualificado, cometido por motivo torpe e sem chance de defesa da vtima. Na sexta-feira, a Justia aceitou a denncia e os trs se tornaram rus. Eles vo a jri popular. Se forem condenados, as penas podem chegar a trinta anos de priso. 
ISABEL MARCHEZAN


5#5 ARTE  HOMEM DE AO
Com rigor e muita transpirao, o americano Richard Serra resgatou a glria da escultura. Uma exposio indita de seus desenhos est chegando ao Brasil.
MARCELO MARTHE, DE NOVA YORK

O americano Richard Serra, de 75 anos,  o maior escultor da atualidade. Formado na Universidade Yale, onde mais tarde foi professor, ele pauta seu trabalho por uma explorao rigorosa das formas e materiais  notadamente, o ao, com o qual cria obras imensas que, nas palavras do crtico australiano Robert Hughes, resgatam a "nobre introspeco" dos mestres da escultura. Embora essas obras possam ser vistas em museus como o Guggenheim de Bilbao, sua especialidade  a interveno em ambientes urbanos. Serra esteve no Brasil tempos atrs para planejar os detalhes da retrospectiva de desenhos que entrar em cartaz no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, no dia 30. Na semana que vem, desembarca de novo no pas para supervisionar a montagem, participar do evento sobre arquitetura e urbanismo Arq.Futuro e lanar um livro de textos e entrevistas pela Editora IMS. Antes da viagem, ele recebeu VEJA no prdio do bairro nova-iorquino de Tribeca que abriga seu estdio e a residncia em que vive com a mulher e dois cachorros. Serra falou sobre seu trabalho, a arte nas cidades e deu opinies fortes sobre os colegas contemporneos.

O senhor  conhecido por suas grandes esculturas. Qual a importncia dentro de sua obra dos desenhos que sero vistos no Brasil? 
O desenho corre em paralelo e se distingue bem da minha obra como escultor, com igual importncia para mim. Desenhar  um exerccio de enxergar melhor o mundo ao nosso redor, e enxergar o mundo  uma forma de raciocinar. Os desenhos, alis, so uma vitrine riqussima da personalidade e das preocupaes de um artista: no h como se esconder sob cores e pinceladas. Alm disso, encaro o desenho como uma ferramenta poderosa de rejuvenescimento. Ele mantm minha mente ativa, desenferruja as mos e deixa os msculos em forma. 

O senhor j disse que est mais interessado no processo de criao do que no resultado. Como assim? 
Se o artista pe os fins na frente dos meios, passa a pensar demais nas consequncias do que est fazendo e a se policiar, isso tem um efeito perverso: voc se preocupa com o que as pessoas vo achar de um trabalho, em vez de cumprir o papel fundamental do artista, que  testar os limites sem medo e, assim, contribuir para que a experincia humana no campo da expresso visual evolua mais um passo. No meu caso,  a explorao excruciante de cada material que possibilita a libertao plena. Os materiais me indicam o caminho, no o contrrio. 

O senhor se vale da matemtica e da engenharia na busca pelo equilbrio das formas. Quanto h de inspirao e transpirao na criao de suas obras? 
Antes eu punha a mo na massa em todas as etapas da criao de uma obra, do planejamento  execuo. Agora, cumpro o trabalho no menos exaustivo de coordenar um esforo coletivo que vai da negociao com a siderrgica alem que produz as esculturas  que se faz com o caminhoneiro que as transportar. A parte do trabalho que compete inicialmente a mim  criar e experimentar a nova escultura em estdio. Depois de encontrar a forma que considero perfeita, elaboro maquetes at chegar a um ajuste fino de como ela deve se sustentar e interagir com o espao. 

O que vem primeiro: a obra em si ou o lugar que ela vai ocupar? 
Uma coisa influencia a outra. Da geografia  circulao das pessoas, muitos fatores pesam na deciso de pr uma escultura em determinado cenrio. Quase sempre minha ideia original vai se alterando  medida que compreendo o que um lugar tem de especial. No caso de meu trabalho mais recente (a instalao East-West/West-East, concluda h trs semanas), quando o emir do Catar me pediu que criasse uma obra no meio do deserto, torci o nariz. Tinha dvidas sobre aquela paisagem montona. Passei meses circulando com um beduno prestativo at achar uma locao que me empolgasse. As quatro placas de ao que instalei ali tm uma interao nica com a topografia. 

O fato de que poucas pessoas tero a chance de ver uma obra to sensacional no meio do deserto no o frustra? 
Quero justamente chamar ateno para a impossibilidade de um contato satisfatrio a tal distncia. A maioria das pessoas conhece as grandes obras de arte pela internet, sem nunca t-las visto de perto. Nossa memria, hoje, est assentada nesses pratos feitos virtuais, e cremos que tudo o que existe e importa pode ser resumido num instantneo. Eu me imbu da misso de dinamitar essa noo. Minhas esculturas e desenhos so feitos para no caber numa foto. Ver e interagir com as coisas de perto  insubstituvel. 

Por que o senhor pensa grande? 
O que me fascina so as possibilidades de intervir no ambiente urbano. O corao de qualquer pas de cultura pulsante est nas grandes cidades que conseguem mobilizar as pessoas e faz-las se reconhecer por meio de sua msica, arquitetura e museus.  isso que torna cidades como Londres, Paris, Nova York e outras to instigantes e fecundas. Lugares que do as costas para isso, como a coreana Seul, se tornam um amontoado opressivo e estril de concreto. 

H algo em comum entre a escultura clssica e o trabalho de artistas contemporneos como o senhor? 
Durante muito tempo, julguei que a escultura contempornea j no guardava relao com o que essa forma de arte foi no passado. Mas hoje percebo que, do renascentista Donatello a um modernista como Brancusi, chegando at minha gerao, as preocupaes da escultura e as marcas que definem sua qualidade so as mesmas: o desafio de lidar com a gravidade, o espao e os materiais na busca pelo equilbrio da forma. 

Nos anos 80, uma escultura sua foi criticada pelos transeuntes de uma praa nova-iorquina e acabou removida. Como  enfrentar a rejeio? 
No creio que houve rejeio, mas uma trapalhada. O governo americano encarregava artistas de criar obras para os espaos pblicos, dava seu o.k. ao projeto e no se lembrava mais da obra. O meu caso foi o primeiro em que o governo resolveu remover uma escultura. Alegava-se que ela dificultava a circulao. Movi uma ao, pois retir-la dali seria o mesmo que destru-la  o que acabou ocorrendo. O mais triste  que o caso piorou as coisas: agora, todos os contratos de obras pblicas na cidade deixam claro que o governo pode tir-las do lugar quando bem quiser,  revelia de nossos direitos sobre elas.  estarrecedor. 

O senhor tirou alguma lio do episdio? 
Sim. Nunca confiar no governo.

 verdade que o senhor detesta quando aplicam o adjetivo "belo" a suas obras? 
 uma palavra surrada. Claro que o artista no pode querer ditar o que as pessoas enxergam em suas obras. Mas no fao arte para oferecer beleza ou conforto. Uma boa obra provoca sensaes mltiplas, muitas vezes conflitantes, e no cabe numa definio to rasa. 

O senhor no cultiva a irreverncia de artistas como Jeff Koons, nem o apetite pelo choque de Damien Hirst. Qual sua opinio sobre essas tendncias? 
Estou interessado no aprimoramento da minha forma de expresso. Se voc est interessado em imagem, inclusive no sentido marqueteiro da palavra, sua arte se torna uma commodity. Muitos artistas fazem arte pensando primariamente no mercado e viram grifes voltadas a atender a uma demanda comercial. No acho que Koons seja irreverente. Ele calculadamente se vende como marca. Tambm Damien Hirst  calculadamente provocativo. No fundo, porm, todos esses artistas so convencionais e ultrapassados. Ainda esto no tempo em que a arte era feita para se exibir em pedestais e a pintura no havia questionado a representao bidimensional. Voltaram a um estado da arte de 100 anos atrs. Mas cada gerao tem os artistas que merece. 

E como o senhor v outro escultor de grandes obras, o indo-britnico Anish Kapoor? 
No me interessa me ver no espelho, exercitar o narcisismo contemporneo de se admirar refletido na superfcie de uma obra  o que me parece ser a pedra de toque do trabalho de Kapoor. De novo, eis um artista que pensa nos fins antes dos meios. S quer agradar ao espectador. Parafraseando o que Bob Dylan disse ironicamente, ele e todos esses outros artistas pertencem a uma "comunidade de servidores": esto ali para prover o que o gosto mdio pede. Seja um pouco de escndalo, beleza ou diverso. 


5#6 RODRIGO CONSTANTINO  ESTRANHAS PRIORIDADES
     Faltando poucos dias para o comeo da Copa, no me lembro de j ter visto um clima de to pouca empolgao, at mesmo de indiferena, por parte dos brasileiros, apesar da forte propaganda oficial. E isso mesmo com o evento sendo no Brasil, o pas do futebol. Onde esto todas aquelas ruas pintadas e ornamentadas com bandeiras nacionais? No vemos nada disso. O que pode explicar tal fenmeno? 
     Creio que parte da explicao se deva ao cansao do povo com a poltica de "po e circo" do governo.  verdade que desde o Imprio Romano as atraes esportivas so usadas para distrair as massas dos problemas econmicos e polticos. Regimes comunistas, como Cuba e Coreia do Norte, at hoje abusam dessa ttica. Mas, em nossa democracia, talvez o tiro tenha sado pela culatra. 
     No  difcil entender o motivo. Os servios pblicos so de pssima qualidade, e com o crescimento da renda, graas a fatores externos e  expanso insustentvel do crdito, os problemas se agravaram. O transporte pblico est catico, os hospitais no do conta da demanda bsica e a insegurana  total, com a criminalidade em alta.  
     Em ditaduras, o povo no conta com instrumentos para reclamar e protestar. Mas o Brasil ainda possui uma imprensa livre, apesar do PT. E, turbinada pelas redes sociais, ela deu voz  profunda insatisfao popular, que ficou impossvel de ignorar aps tantos protestos nas ruas. Por esse motivo a presidente Dilma, a "gestora eficiente", tem medo de fazer discurso na abertura dos jogos: sabe que seria vaiada. 
     Governantes precisam fazer escolhas em um ambiente de recursos escassos.  fato que nosso governo j arrecada quase 40% de tudo o que  produzido pela iniciativa privada. Mas mesmo assim so recursos limitados, e o bom governante  aquele que sabe escolher as prioridades certas, para atender s necessidades do povo da melhor forma possvel. Qualquer brasileiro tem plena conscincia da terrvel situao de nossa infraestrutura, do SUS e de nossas escolas pblicas. Como convencer o povo, portanto, de que vale a pena gastar tantos bilhes em arenas esportivas? Pior: em estdios que sero abandonados como "elefantes brancos" logo aps os jogos da Copa? 
     Quando se escolheu o Brasil para realizar a Copa, foi dito que o grosso dos recursos viria do setor privado e que se deixaria um legado de infraestrutura para o pas. Duas mentiras. Nossos impostos tiveram de bancar a farra, e no teremos grandes melhorias de infraestrutura coisa alguma. O governo no foi capaz de cumprir nem metade das promessas feitas  Fifa! 
     Para adicionar insulto  injria, a Copa no ser realizada em oito estdios, como recomenda a Fifa, mas em doze! Segundo o secretrio-geral da entidade, Jrme Valcke, o ex-presidente Lula e a CBF de Ricardo Teixeira  que teriam feito presso para que os jogos ocorressem em todo o pas. 
     Fora os vrios riscos logsticos que isso gera, resta perguntar: qual o benefcio para o pas em gastar bilhes para construir ou reformar estdios em Braslia, Manaus, Cuiab? At se pode justificar que o Maracan ter sempre pblico para remunerar a fortuna gasta em sua reforma, mesmo que salte aos olhos o absurdo da quantia. Mas como argumentar que essas outras arenas fazem algum sentido? 
     Ser que os pobres em Braslia no prefeririam ter mais segurana pblica? Ser que o povo de Manaus no extrairia mais vantagens de investimentos em infraestrutura? Ser que Cuiab precisa mesmo de um estdio novo, em vez de hospitais e escolas melhores? 
     Quando lembramos que os recursos so escassos e que  preciso fazer escolhas, o absurdo dessas decises fica evidente. So estranhas prioridades, que parecem bastante insensveis diante das reais necessidades populares. Seria essa a razo de tanta indiferena ou mesmo revolta da populao? 
     Que um evento desse porte no Brasil jamais teria a organizao alem e a transparncia nos gastos pblicos sueca, todos j sabiam  o que no retira a legitimidade de crticas, pois no podemos aceitar esse fatalismo de que somos esculhambados e corruptos para sempre. Mas o governo passou dos limites. Ainda no sabemos como ser a experincia, e nos resta torcer para que nenhum incidente mais grave acontea, para evitarmos uma humilhao maior ainda. Mas que o saldo da Copa j  negativo para o pas, isso est claro, mesmo se o Brasil for campeo. Seu custo foi alto demais, e os interesses nacionais foram sacrificados no altar da demagogia e dos interesses obscuros dos governantes. O povo, como sempre, pagou o pato. 


